segunda-feira, 14 de julho de 2025

Português para concurso - Nível Superior. Banca Idecan

Cultura 

Ele disse: “O teu sorriso é como o primeiro suave susto de Julieta quando, das sombras perfumadas do jardim sob a janela insone, Romeu deu voz ao sublime Bardo e a própria noite aguçou seus ouvidos”. 

E ela disse: “Corta essa.” 

E ele disse: “A tua modéstia é como o rubor que assoma à face de rústicas campônias acossadas num quadro de Bruegel, pai, enaltecendo seu rubicundo encanto e derrotando o próprio simular de recato que a natureza, ao     deflagrá‐lo, quis.” 

E ela disse: “Cumé que é?” 

E ele: “Eu te amo como jamais um homem amou, como o Amor mesmo, em seu autoamor, jamais se considerou capaz de amar.” 

E ela: “Tô sabendo…” 

“Tu és a chuva e eu sou a terra; tu és ar e eu sou fogo; tu és estrume, eu sou raiz.” 

“Pô!” 

“Desculpe. Esquece este último símile. Minha amada, minha vida. A inspiração é tanta que transborda e me foge, eu estou bêbado de paixão, o estilo tropeça no meio‐fio, as frases caem do bolso…”estou bêbado de paixão, o estilo tropeça no meio‐fio, as frases caem do bolso…” 

“Sei…” 

“Os teus olhos são dois poços de águas claras onde brinca a luz da manhã, minha amada. A tua fronte é como o muro de alabastro do templo de Zamaz‐al‐Kaad, onde os sábios iam roçar o nariz e pensar na Eternidade. A tua boca é uma tâmara partida… Não, a tua boca é como um… um… Pera só um pouquinho…” 

“Tô só te cuidando.” 

“A tua boca, a tua boca, a tua boca… (Uma imagem, meu Deus!)” 

“Que qui tem a minha boca?” 

“A tua boca, a tua boca… Bom, vamos pular a boca. O teu pescoço é como o pescoço de Greta Garbo na famosa cena da nuca em Madame Walewska, com Charles Boyer, dirigido por Clawrence Brown, iluminado por… 

“Escuta aqui…” 

“Eu tremo! Eu desfaleço! Ela quer que eu a escute! Como se todo o meu ser não fosse uma membrana que espera a sua voz para reverberar de amor, como se o céu não fosse a campana e o Sol o badalo desta sinfonia especial: uma palavra dela…” 

“Tá ficando tarde”. 

“Sim, envelhecemos. O Tempo, soturno cocheiro deste carro fúnebre que é a Vida. Como disse Eliot, aliás, Yeats – ou foi Lampedusa? –, o Tempo, esse surdo‐mudo que nos leva às costas…” 

“Vamos logo que hoje eu não posso ficar toda a noite.” 

“Vamos! Para o Congresso Carnal. O monstro de duas costas do Bardo, acima citado. Que nossos espíritos entrelaçados alcem voo e fujam, e os sentidos libertos ergam o timão e insuflem as velas para a tormentosa viagem ao vórtice da existência humana, onde, que, a, e, o, um, como, quando, por que, sei lá…” 

“Vem logo.” “Palavras, palavras…”

 “Depressa!” 

“Já vou. Ah, se com estas roupas eu pudesse despir tudo, civilização, educação, passado, história, nome, CPF, derme, epiderme… Uma união visceral, pâncreas e pâncreas, os dois corações se beijando através das grades das caixas torácicas como Glenn Ford e Diana Lynn em…” 

“Vem. Assim. Isso. Acho que hoje vamos conseguir. Agora fica quieto e…” 

“Já sei!” 

“O quê? Volta aqui, pô”…” 

“Como um punhado de amoras na neve das estepes. A tua boca é como um punhado de amoras na neve das estepes! 

(VERÍSSIMO, Luiz Fernando.)


1. A partir da linguagem apresentada no diálogo, é correto afirmar que:

a) a intenção comunicativa dos personagens é anulada em virtude da inadequação linguística. 

b) há uma superioridade de uma variedade apresentada em relação à outra considerando‐se o contexto apresentado. 

c) ela é a grande responsável pela caracterização de cada um dos personagens, permitindo reconhecê‐los de forma definida. 

d) revela particularidades de vocabulário demonstrando neologismos e regionalismos, características das linguagens utilizadas pela personagem feminina e pela personagem masculina, respectivamente.   


2. Além do diálogo inusitado em que os personagens apresentam distanciamento quanto à linguagem utilizada, o autor utiliza, como recurso, expressões que produzem efeito de humor. Assinale o segmento em destaque em que tal fato pode ser observado.   

a) “Que qui tem a minha boca?” (15º§) 

b) “Eu tremo! Eu desfaleço! Ela quer que eu a escute!” (18º§) 

c) “Vamos logo que hoje eu não posso ficar toda a noite.” (21º§) 

d) “A tua boca, a tua boca, a tua boca… (Uma imagem, meu Deus!)” (14º§)


3. Em relação à construção “Tu és a chuva e eu sou a terra;” (7º§) o personagem utiliza:   

a) a intensificação daquilo que é anunciado.    

b) possibilidade de haver realização simultânea de opostos. 

c) equiparação entre elementos através de uma relação de contiguidade. 

d) o emprego de palavras de um determinado domínio de conhecimento para verbalizar experiências de outro domínio. 


4. Em “Romeu deu voz ao sublime Bardo e a própria noite aguçou seus ouvidos.” (1º§) é correto afirmar em relação aos termos destacados, que    

a) há apenas dois termos adjacentes, ou complementares, da forma verbal “deu”. 

b) há três complementos verbais, sendo a relação de transitividade diferente entre os mesmos. 

c) apenas dois deles podem ser identificados como complementos verbais que possuem uma relação indireta com o verbo ao qual estão ligados. 

d) o primeiro termo em destaque é o único complemento da forma verbal “deu” no segmento em análise, os demais são complementos de termos diferentes.   


5. Na linguagem utilizada pelo personagem masculino há predominância de determinada variedade linguística, porém, uma mudança quanto a tal escolha em razão de certa dificuldade na formulação do enunciado ocorre em: 

a) “... tu és estrume, eu sou raiz.” (7º§) 

b) “Desculpe. Esquece este último símile.” (9º§) 

c) “... o estilo tropeça no meio‐fio, as frases caem do bolso…” (9º§) 

d) “Não, a tua boca é como um… um… Pera só um pouquinho…” (12º§)


6. Leia um trecho do texto do professor Sírio Possenti.

“Saber falar significa saber uma língua. Saber uma língua significa saber uma gramática. [...] 

As crianças, por exemplo, não estudam sintaxe da colocação antes de ir à escola, mas, sempre que falam sequências que envolvem, digamos, um artigo e um nome, dizem o artigo antes e o nome depois. [...]”

(POSSENTI, Sírio.) 

Acerca do trecho lido, pode‐se afirmar que as considerações feitas refletem características da:   

a) gramática prescritiva ou normativa. 

b) gramática descritiva, ou gramática explícita. 

c) gramática latente, no domínio restrito de cada língua. 

d) gramática universal, que diz respeito às características próprias de cada língua.  


Uma esperança 

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica‐se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto. 

Houve um grito abafado de um de meus filhos: 

– Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser. 

– Ela quase não tem corpo, queixei‐me. 

– Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças. 

Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender. 

– Ela é burrinha, comentou o menino. 

– Sei disso, respondi um pouco trágica. 

– Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita. 

– Sei, é assim mesmo. – Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas. 

– Sei, continuei mais infeliz ainda. 

Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando‐a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse. 

– Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar – estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo. 

Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar‐se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê‐la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança: 

– É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte... 

– Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade. 

– Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros – falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança. 

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo. 

Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá‐la. 

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada. 

(LISPECTOR, Clarice)


7. Considerando‐se o gênero textual apresentado, leia as características a seguir e assinale apenas as que lhe podem ser atribuídas. 

I. Desenrolar de um conflito interior. 

II. Narração de duas histórias simultâneas. 

III. Independência textual em relação ao leitor.   

IV. Temporalidade narrativa composta por dois tipos temporais diferentes.   Estão presentes no texto apenas as características.


a) I e II.       

b) III e IV.     

c) I, II e III.     

d) I, II e IV.


8. Em relação ao conto de Clarice Lispector, é correto afirmar que sua construção acontece, principalmente em função 

A) da descrição do convívio familiar. 

B) de um fato ao mesmo tempo simples e inusitado.   

C) do pessimismo gerado pela narradora personagem. 

D) de dois possíveis sentidos atribuídos a um mesmo vocábulo. 


9. Quanto à classificação sintática dos termos da oração, identifique o que DIFERE dos demais destacados nos segmentos a seguir: 

a) “E, acho que não aconteceu nada.” (22º§) 

b) “Houve um grito abafado de um de meus filhos:” (2º§) 

c) “– Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós,...” (5º§) 

d) “Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.” (3º§)


10. Considere o trecho “[...] e como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.” (5º§) e os comentários a seguir assinalando o verdadeiro. 

a) A forma verbal “são” prejudica a compreensão textual tendo em vista a expressão no singular “uma surpresa”. 

b) Uma alternativa de construção , mantendo o sentido original, para “que ele falava das duas esperanças” é “que se falavam das duas esperanças”. 

c) Caso o termo “ele” fosse omitido, a forma verbal “falava” seria empregada, obrigatoriamente, no plural; tendo em vista seu antecedente.   

d) Uma possibilidade de reescrita em que há correção gramatical, desconsiderando alteração de sentido, seria: “... e como filho é surpresas para nós...” 


11. Tendo em vista o processo de comunicação e os elementos que o compõem, pode‐se afirmar que o último parágrafo do texto pode ser visto com um exemplo em que: 

a) a comunicação está centrada no referente; a principal função do emissor é informar. 

b) o texto torna‐se persuasivo através da linguagem conativa, estando a mensagem centrada no receptor. 

c) a função da linguagem está centrada no emissor da mensagem, veicula seus sentimentos, emoções e julgamentos; o texto é subjetivo. 

d) a função da linguagem empregada no trecho em análise está centrada no código, trazendo explicações e definindo o que não está claro. 

 

12. As palavras, de acordo com sua classificação morfológica e funções comunicativas, podem apresentar diferentes efeitos discursivos. De acordo com o exposto, analise dois segmentos a seguir. 


I. “Mas ela vai esmigalhar a esperança!” (18º§) 

II. “Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive...” (21º§) 


Sobre os dois segmentos destacados anteriormente, é correto afirmar que:

a) expressam uma relação de contraste entre dois fatos e/ou ideias. 

b) demonstram realce a todas as alternativas do enunciado expresso. 

c) demonstram a continuidade lógica do raciocínio iniciado anteriormente.   

d) expressam relações diferentes tendo em vista o período anterior a cada um.


13. Acerca da expressão das intenções comunicativas do enunciador, considere o segmento “E, acho que não aconteceu nada.” (22º§) e assinale dentre o grupo de exemplos a seguir, o que mais se aproxima em relação à modalização enunciativa.   

a) Esse projeto precisa ser concluído. 

b) A sessão terminará daqui a alguns minutos.   

c) Disse que ela conhece todo o procedimento necessário. 

d) É possível que tenha obtido sucesso neste empreendimento.


14. Dentre as expressões destacadas, apenas uma NÃO produz o mesmo efeito de sentido visto nas demais; assinale‐a. 

a) “Aqui em casa pousou uma esperança.” (1º§) 

b) “... respondeu o menino com ferocidade.” (18º§) 

c) “– Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira!” (3º§) 

d) “... esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim,...” (3º§)


15. Acerca do processo que consiste em combinar duas unidades livres, através do uso de conectivos destacados, identifique a correta relação indicada entre os dois termos associados.   

a) “tem idade para isso” (3º§) / fim.         

b) “surpresa para nós” (5º§) / preterição.  

c) “ouviu e riu de prazer.” (20º§) / referência. 

d) “Não senti nada, de tão leve que era” (22º§) / meio. 


16. Quanto à formação de palavras, em português há cinco processos principais, dentre eles a derivação e composição. 

Em “Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.” (3º§) o termo destacado é formado por meio de acréscimo de afixo cujo sentido equivale ao visto em todos os vocábulos da alternativa: 

a) insolar, inscrever, inativo.       

b) indelicado, inserir e infixo.          

c) influir, incrustar e incriminar. 

d) imprestável, imberbe e indispensável.  



Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterradas por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.    

(Manoel de Barros)


17. Durante uma aula sobre o emprego dos pronomes, particularmente os pessoais, foi apresentado o seguinte quadro aos alunos: 


Pronomes Retos.............. Pronomes Oblíquos

Eu..................................... me, mim, comigo.

Tu..................................... te, ti, contigo.

Ele...................................... o, a, lhe, se, si, consigo. 

Nós...................................... nos, conosco.

Vós...................................... vos, convosco.

Eles....................................... os, as, lhes, se, si, consigo. 


O professor esclareceu ainda que “na língua culta, só os pronomes oblíquos aparecem regidos de preposição”. Diante da frase vista no texto “Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras.” surgiu uma dúvida em relação à construção “respondi a eles”, diante da qual o professor completou a explicação corretamente da seguinte forma: 

a) “Trata‐se do registro da variedade linguística não padrão.” 

b) “A preposição, nesse caso, rege o verbo, e não o pronome.” 

c) “Deverá ser feita a correção, substituindo ‘respondi a eles’ por ‘os respondi’.” 

d) “As formas nós, vós, ele (e variações) são oblíquas quando regidas de preposição.”


18. Outra alternativa estrutural em que há correção gramatical e semântica para comunicar o mesmo conteúdo de “Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.” está em, EXCETO:   

a) Joguei a escova fora quando eles acharam que não batia bem. 

b) Quando eles acharam que eu não batia bem, joguei a escova fora. 

c) Quando eu joguei a escova fora, eles acharam que eu não batia bem. 

d) Eles acharam que eu não batia bem; nessa ocasião, joguei a escova fora.   


19. Considerando que as alternativas de A a D da questão anterior apresentam períodos constituídos, assinale a afirmativa correta.   

a) Em todos os períodos é possível indicar o emprego de uma locução indicando concessão.   

b) A subordinação de orações está presente em todos os períodos, com exceção do iniciado pelo pronome “eles”. 

c) A locução “nessa ocasião”, que inicia a oração, indica um sentido temporal em relação à informação do período. 

d) A oração “que eu não batia bem”, presente nos quatro períodos, constitui oração coordenada tornando‐a um  elo sintático.


20. No texto transcrito, o autor fala de uma relação pessoal com a palavra que de igual modo pode ser observada através do segmento a seguir, EXCETO: 

a) “Torce, aprimora, alteia, lima 

A frase; e, enfim, 

No verso de ouro engasta a rima, 

Como um rubim.” 

(Olavo Bilac.) 


b) Chega mais perto e contempla as palavras. 

Cada uma 

tem mil faces secretas sob a face neutra 

e te pergunta, sem interesse pela resposta, 

pobre ou terrível que lhe deres: 

Trouxeste a chave? 

(Carlos Drummond de Andrade.) 


c) Pedras vivas de possibilidade 

as palavras levantam 

o crime, os pássaros do pântano 

(Casimiro de Brito.) 


d) Minhas filhas, escutai 

palavras de minha boca. 

Era uma dona de longe, 

vosso pai enamorou‐se. 

(Carlos Drummond de Andrade.)


21.

I. “Falar contra a ‘gramatiquice’ não significa propor que a escola só seja ‘prática’, não reflita sobre questões de língua. Seria contraditório propor esta atitude, principalmente porque se sabe que refletir sobre a língua é uma das atividades usuais dos falantes e não há razão para reprimi‐la na escola. Trata‐se apenas de reorganizar a discussão, de alterar prioridades [...]”                       

(POSSENTI, Sírio.) 


II. “Desse modo, a glotodidática não pode, sem uma análise mais profunda, adotar como normais na gramática escolar ‘desvios’ da chamada língua padrão só pelo peso da sua frequência na chamada língua coloquial ou familiar.” 

(BECHARA, Evanildo.)   

*(As fontes completas foram omitidas propositadamente). 

Em relação aos fragmentos e aos pontos de vista apresentados, pode‐se afirmar que os dois: 

a) divergem totalmente acerca da importância do ensino da gramática na escola. 

b) tratam de formas diferentes do mesmo assunto, utilizando como recurso de argumentação a intergenericidade. 

c) convergem para um ponto em comum, não apresentando qualquer tipo de divergência quanto ao assunto tratado. 

d) tratam de assuntos e temas diferentes, porém, complementares considerando‐se a necessidade da sistematização do ensino da língua padrão.


22. Durante um trabalho de reescritas de textos de uma turma, o professor se depara com a seguinte frase: “Foi difícil para mim perceber o erro”. 

Com o objetivo de ampliar o conhecimento do aluno em relação à atividade proposta, o professor deverá 

a) esclarecer acerca do uso indevido do pronome oblíquo nesta frase. 

b) manter a frase como está, pois, tal construção está adequada de acordo com a norma padrão da língua.   

c) não fazer qualquer comentário ou alteração para que a escolha pela variante não padrão seja valorizada. 

d) confrontar o uso inadequado aplicado pelo aluno com a escolha adequada permitindo que ele mesmo tire suas conclusões.   


23. Segundo Marilena Chauí, em seu livro Convite à Filosofia (2008), a disciplina denominada ética nasce quando se passa a indagar o que são, de onde vêm e o que valem os costumes, ou seja, nasce quando também se busca compreender o caráter de cada pessoa. Considerando um ambiente de trabalho, muitos processos ético‐disciplinares são esperados do profissional.  Assinale a alternativa que NÃO apresenta uma conduta ética coerente num grupo de trabalho. 

a) Corresponder à confiança que é depositada pelo grupo, nesse profissional. 

b) Corrigir condutas inadequadas, seja por percepção própria ou por solicitação. 

c) Estabelecer relações genuínas com as pessoas, independente se forem da equipe ou não.

d) Aproximar dos colegas com atitudes de confidencialidade para captar informações de interesse dos superiores.


24. Muitos são os autores que discutem e conceituam ética. Uma das possíveis definições é de que ela seria uma parte da filosofia que lida com a compreensão das noções e dos princípios que sustentam as bases da moralidade social e da vida individual. Em outras palavras, trata‐se de uma reflexão sobre o valor das ações sociais consideradas tanto no âmbito coletivo quanto no âmbito individual. Analise as afirmativas a seguir, marque V para as verdadeiras e F para as falsas. 

(     ) Sócrates, Platão e Aristóteles foram responsáveis por propor uma espécie de “estudo” sobre o que de fato poderia ser compreendido como valores universais a todos os homens, buscando, dessa forma, ser correto, virtuoso, ético. 

(     ) Os sociólogos clássicos foram os primeiros a discutir sobre ética, num esforço pelo exercício de um pensamento crítico e reflexivo quanto aos valores e costumes dos seres humanos. 

(     ) A ética seria uma reflexão acerca da influência que o código moral estabelecido exerce sobre a nossa subjetividade, nossa forma de conduta. 

(   ) Consciência e responsabilidade são condições indispensáveis à vida ética ou moralmente correta. 


A sequência está correta em: 

a) F, F, V, F.     

b) V, V, F, F.     

c) V, F, V, V.     

d) F, V, F, V. 


25. Pensar no compromisso ético de um profissional é pensar no significado de seus atos, como o ato de ensinar para um professor. Ser ético é buscar a reflexão sobre o que é bom ou mau, justo ou injusto, correto ou incorreto e adequado ou inadequado, para encontrar bons caminhos na atuação profissional. Esta reflexão sobre a ação humana é que caracteriza a ética. A propósito desta temática, cabe ao profissional: 

a) Entender que essa teoria filosófica não sustenta uma prática. 

b) Adotar uma visão positivista, idealista e materialista da relação do sujeito com o mundo.

c) Buscar a integração do sujeito com ele mesmo, distanciando‐o dos aspectos circunscritos ao social. 

d) Pensar a relação sujeito e objeto, buscando a síntese das múltiplas determinações pessoais, particularidades e estruturais.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Português para concurso - Ensino Superior. Banca Idecan

 Caça aos racistas 

Alunos da Universidade Princeton querem tirar o nome de Woodrow Wilson de uma das mais importantes faculdades da instituição, a Woodrow Wilson School of Public and International Affairs. O motivo, é claro, é o racismo. 

Thomas Woodrow Wilson (1856‐1924) ocupou a Presidência dos EUA por dois mandatos (1913‐1921). Era membro do Partido Democrata, levou o Nobel da Paz em 1919 e foi reitor da própria universidade. Mas Wilson era inapelavelmente racista. Achava que negros não deveriam ser considerados cidadãos plenos e tinha simpatias pela Ku Klux Klan. Merece ter seu nome cassado? 

A resposta é, obviamente, “tanto faz”. Um nome é só um nome e, para quem já morreu, homenagens não costumam mesmo fazer muita diferença. De resto, discussões sobre racismo são bem‐vindas. Receio, porém, que a demanda dos alunos caminhe perigosamente perto do anacronismo. Sim, Wilson era racista, mas não podemos esquecer que a época também o era. O 28º presidente dos EUA não está sozinho. 

“Não sou nem nunca fui favorável a promover a igualdade social e política das raças branca e negra... há uma diferença física entre as raças que, acredito, sempre as impedirá de viver juntas como iguais em termos sociais e políticos. E eu, como qualquer outro homem, sou a favor de que os brancos mantenham a posição de superioridade.” Essa frase, que soa particularmente odiosa a nossos ouvidos modernos, é de Abraham Lincoln, que, não obstante, continua sendo considerado um campeão dos direitos civis. 

`´O problema são os americanos; eles são atavicamente racistas, dirá o observador antiimperialista. Talvez não. “O negro é indolente e sonhador, e gasta seu dinheiro com frivolidades e bebida”. Essa pérola é de Che Guevara. Alguns dizem que, depois, mudou de opinião. Quem não for prisioneiro de seu próprio tempo que atire a primeira pedra.


1. Em relação às ideias e informações expressas nos parágrafos do texto, considere as seguintes afirmativas: 

) A intertextualidade pode ser observada como um dos recursos linguísticos utilizados pelo autor. 

2 ) Após breve enumeração, o autor apresenta características que se opõem às atribuições anteriores. 

) O autor utiliza uma citação como recurso de sua argumentação para compor a maior parte do parágrafo. 

1 ) O autor do texto apresenta uma informação que pode ser considerada o fato motivador para a construção do texto. 

3) Um novo posicionamento é introduzido e apresentado mediante argumentos consistentes que se seguem no texto.   

A sequência, de acordo com a ordem do conteúdo dos parágrafos, está correta em:   

a) 5, 2, 4, 1, 3.     

b) 2, 1, 3, 4, 5.     

c) 3, 4, 1, 2, 5.     

d) 1, 3, 2, 5, 4.


2. De acordo com a estrutura e os recursos textuais apresentados, é correto afirmar acerca do texto em análise que sua principal finalidade é: 

a) desenvolver o conceito de racismo relacionado a épocas diferentes. 

b) oferecer esclarecimentos sobre o fato motivador para o desenvolvimento do texto. 

c) apresentar opinião pessoal para um debate público acerca de uma questão de caráter social. 

d) buscar, através do discurso social, a expressão da subjetividade utilizando uma linguagem amplamente metafórica. 


3. Alguns recursos de linguagem são utilizados com o propósito de conferir maior credibilidade ao texto. Dentre os que foram empregados com tal fim, estão: 

I. Refutação de argumentos contrários. 

II. A escolha do tipo de linguagem utilizada. 

III. Inserção de citações que reforçam a tese construída pelo autor. 

Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s):

a) I, II e III.  

b) I, apenas. 

c) I e II, apenas. 

d) II e III, apenas.


4. Considerando o contexto em que as palavras aparecem no texto, assinale o significado corretamente atribuído ao vocábulo em destaque a seguir: 

a) “indolente e sonhador” (5º§) / irrefutável.

b) “inapelavelmente racista” (2º§) / meramente. 

c) “atavicamente racistas” (5º§) / geneticamente. 

d) “perto do anacronismo” (3º§) / individualismo. 


5. Para que haja manutenção da coerência, consistência e sentidos textuais; assinale a reescrita correta a seguir. 

a) “O motivo, é claro, é o racismo.” (1º§) / O motivo é claro: o racismo. 

b) “Um nome é só um nome,...” (3º§) / Um nome é, obviamente, só o nome. 

c) “A resposta é, obviamente, ‘tanto faz’” (3º§) / A resposta, é claro, “tanto faz”. 

d) “Alguns dizem que, depois, mudou de opinião.” (5º§) / A partir daí mudou de opinião.  


6. Acerca da expressão “De resto” em “De resto, discussões sobre racismo são bem‐vindas.” (3º§), pode‐se inferir que para o autor: 

a) o racismo é uma discussão completamente exaurida.   

b) é uma prova de que o racismo persiste até os dias de hoje.   

c) até mesmo o debate acerca do racismo é visto de forma preconceituosa. 

d) o que importa diante da situação apresentada são os debates sobre o tema “racismo”. 


7. O termo “o” em “Sim, Wilson era racista, mas não podemos esquecer que a época também o era.” (3º§) possui classificação morfológica equivalente ao destacado em, EXCETO:   

a) “Todo o País pensa assim.” 

b) “Nem tudo o que reluz é ouro.”   

c) “Perguntei‐lhe se gostaria de vir conosco, mas ele não o quis.” 

d) “Estes vinhos são muito apreciados nessa região, e o são com todo o merecimento.”


A divisão do trabalho social cria a solidariedade 

[...]

Bem diverso [da solidariedade mecânica] é o caso da solidariedade produzida pela divisão do trabalho. Enquanto a precedente implica que os indivíduos se assemelham, esta supõe que eles diferem uns dos outros. A primeira só é possível na medida em que a personalidade individual é absorvida na personalidade coletiva; a segunda só é possível se cada um tiver uma esfera de ação própria, por conseguinte, uma personalidade.  É necessário, pois, que a consciência coletiva deixe descoberta uma parte da consciência individual, para que nela se estabeleçam essas funções especiais que ela não pode regulamentar; e quanto mais essa região é extensa, mais forte é a coesão que resulta dessa solidariedade. De fato, de um lado, cada um depende tanto mais estreitamente da sociedade quanto mais dividido for o trabalho nela e, de outro, a atividade de cada um é tanto mais pessoal quanto mais for especializada.

 Sem dúvida, por mais circunscrita que seja, ela nunca é completamente original; mesmo no exercício de nossa profissão, conformamo‐nos a usos, a práticas que são comuns a nós e a toda a nossa corporação. Mas, mesmo nesse caso, o jugo que sofremos é muito menos pesado do que quando a sociedade inteira pesa sobre nós, e ele proporciona muito mais espaço para o livre jogo de nossa iniciativa. Aqui, pois, a individualidade do todo aumenta ao mesmo tempo que a das partes; a sociedade torna‐se mais capaz de se mover em conjunto, ao mesmo tempo em que cada um de seus elementos tem mais movimentos próprios. Essa solidariedade se assemelha à que observamos entre os animais superiores. De fato, cada órgão aí tem sua fisionomia especial, sua autonomia, e contudo a unidade do organismo é tanto maior quanto mais acentuada essa individualização das partes. Devido a essa analogia, propomos chamar de orgânica a solidariedade devida à divisão do trabalho. [...] 

(DURKHEIM, Émile).


8. Considerando as ideias do trecho “Bem diverso [da solidariedade mecânica] é o caso da solidariedade produzida pela divisão do trabalho. Enquanto a precedente implica que os indivíduos se assemelham, esta supõe que eles diferem uns dos outros.”, analise as afirmativas a seguir. 

I. Há uma distinção clara e objetiva acerca de conceitos diferenciados estabelecidos. 

II. As duas vertentes apresentadas a partir de um mesmo conceito podem ser consideradas complementares.   

III. Ocorre o estabelecimento de uma comparação entre características diferentes atribuídas a um mesmo conceito. 

Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s):

a) I.       

b) III.       

c) I e II.       

d) II e III. 


9. De acordo com os aspectos da construção do texto, analise as considerações a seguir e assinale a afirmativa correta.   

a) A expressão “em conjunto” é empregada para qualificar uma ação verbal atribuindo‐lhe sentido temporal. 

b) O pronome demonstrativo “o” em “Mas, mesmo nesse caso, o jugo que sofremos [...]” é invariável e equivale a “isso”.   

c) O segmento “é muito menos pesado do que quando” é constituído de expressões que indicam, respectivamente, referências a comparação e temporalidade.   

d) A forma verbal em destaque, apresenta‐se no singular, em “É necessário, pois, que a consciência coletiva deixe descoberta uma parte da consciência individual, [...]” já que o sujeito é constituído de orações.    


10. De acordo com o autor, a solidariedade advinda da divisão do trabalho social: 

a) constitui benefícios tanto individuais quanto coletivos, considerando‐se os resultados obtidos. 

b) produz uma visão estereotipada da sociedade capitalista, criticada pela maioria dos indivíduos.   

c) possui mais aspectos negativos que positivos, à medida que exclui o ser individual em favor do social. 

d) quebra barreiras impostas pela mecanização do trabalho, valorizando a individualização em detrimento da socialização. 


11. Analise os trechos a seguir. 

I. “É necessário, pois, que a consciência coletiva deixe descoberta uma parte da consciência individual,...” 

II. “... se cada um tiver uma esfera de ação própria, por conseguinte, uma personalidade.”

III. “... e quanto mais essa região é extensa, mais forte é a coesão que resulta dessa solidariedade.” 

IV. “... para que nela se estabeleçam essas funções especiais que ela não pode regulamentar;...” 

Em relação aos segmentos destacados anteriormente, identificam‐se termos/expressões que indicam o mesmo sentido apenas em: 

a) I e II.       

b) II e III.     

c) I, III e IV.     

d) II, III e IV. 


12. Na construção da expressão “o jugo que sofremos”, é correto afirmar que – em relação a recursos da linguagem – pode ser observada a utilização de:   

a) sentido referencial, passível de análise fora do discurso. 

b) integração, diferença entre pontos de vista contraditórios.   

c) generalização que evoca consequências impostas a toda a sociedade. 

d) sentido afetivo, determinado pelo contexto no qual determinado vocábulo está inserido.


“Enquanto a precedente implica que os indivíduos se assemelham, esta supõe que eles diferem uns dos outros. A primeira só é possível na medida em que a personalidade individual é absorvida na personalidade coletiva; a segunda só é possível se cada um tiver uma esfera de ação própria, por conseguinte, uma personalidade.” 


13. Acerca do segmento transcrito anteriormente, é correto afirmar que:   

a) constitui resumo das ideias desenvolvidas anteriormente. 

b) inicia a ampliação de uma afirmativa inicial, desenvolvida a seguir.       

c) enumera fatos, apresentando o desenvolvimento temático do texto.   

d) a partir de uma contra argumentação fortalece as ideias anteriores desenvolvendo‐as.   


14. Sabendo‐se que os pronomes demonstrativos são empregados – entre outros – para localizar, em relação às pessoas do discurso, os objetos que entram no conteúdo do enunciado; assinale a alteração a seguir que está de acordo com a determinação remissiva vista no segmento em análise.   

a) “Enquanto essa implica que os indivíduos se assemelham, esta supõe que eles diferem uns dos outros.” 

b) “Enquanto esta implica que os indivíduos se assemelham, aquela supõe que eles diferem uns dos outros.” 

c) “Enquanto aquela implica que os indivíduos se assemelham, esta supõe que eles diferem uns dos outros.” 

d) “Enquanto a precedente implica que os indivíduos se assemelham, aquela supõe que eles diferem uns dos outros.” 


15. Através da forma verbal empregada no título do texto, é correto afirmar que há indicação de que: 

a) a ação teve início em um momento anterior ao da enunciação. 

b) tal forma foi empregada com o mesmo valor do futuro do presente.   

c) ocorre a expressão de uma situação permanente, de validade ilimitada. 

d) o fato ocorre no momento da enunciação, caracterizando o presente pontual.

sábado, 17 de maio de 2025

Português para concurso - Ensino Superior. Banca Idecan

 Até quando deixaremos milhões de brasileiros sem água e saneamento? 

O Brasil viveu um “apagão” no setor sanitário de pelo menos duas décadas; a falta dessa infraestrutura se tornou ainda pior nas megalópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, entre outras onde esgotos foram sistematicamente lançados em rios e no mar tomando-se ícones do despreparo. Bairros famosos foram construídos sem redes de coleta de esgoto, consequentemente também sem as estações de tratamento. Regiões muito importantes para o turismo, como o Norte e Nordeste, atualmente são as que possuem os maiores desafios. Menos de 10% da população do Norte têm coleta de esgoto. Já no Nordeste, um pouco mais de 25% da população têm coleta de esgoto. 

A falta de serviços regulares de saneamento básico, portanto, está por toda parte, dos bairros mais nobres às favelas mais carentes. Mas é certo que a maior indefinição esteja nas áreas mais pobres e nas milhares de áreas irregulares espalhadas pelas cidades do país. Apesar do crescimento econômico e da transferência de renda que vivemos nos últimos anos, os dados do Censo 2010 do IBGE mostram que no Brasil ainda temos mais de 11 milhões de pessoas morando somente nestas áreas irregulares, sendo que os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Bahia e Pernambuco concentram as maiores populações nessa situação. Somente esses 5 estados respondem por quase 8 milhões dos brasileiros vivendo em aglomerados subnormais (cerca de 70% do total). 

Se olharmos a perda de água potável nos sistemas de distribuição, por motivo de fraudes no sistema, erros de leitura dos hidrômetros ou vazamentos, veremos que no Brasil está na média de 37%, então é bom ver cidades como Limeira e Campinas, em São Paulo, que sistematicamente desenvolvem ações de combate às perdas, tais como a redução da pressão nas redes, investimentos na troca de redes, automatização na detecção de vazamentos, educação da população para o uso racional

A realidade ainda é mais assustadora quando vemos que no Brasil há mais escolas conectadas à internet do que dotadas de sistema de coleta de esgoto. A cobertura das escolas com rede de esgoto, entre 2010 e 2014, cresceu meros 5 pontos percentuais, de 42% para 47%, enquanto o de escolas com internet saltou de 47% para 61 %. Os dados são do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e mostram como o saneamento está atrasado no País.

A boa notícia é que nos últimos anos o Brasil viveu um momento mais favorável ao saneamento, especialmente após a Lei nº 11.445 de 2007, o lançamento do PAC Saneamento, a criação do Ministério das Cidades e consequentemente a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental. O país voltou a ter investimentos regulares, de 2007 a 2014, e entre os 100 maiores municípios, o Brasil tem umas 20 cidades que ostentam indicadores invejáveis de saneamento e que não ficam a dever aos países do primeiro mundo. Essas cidades, em contraste com a maioria dos municípios brasileiros, inclusive capitais, estão mais próximas da universalização dos serviços. 

Os recursos do PAC Saneamento ajudaram no avanço, mas infelizmente não conseguiram gerar todo o potencial de progresso que se esperava. Levantamentos do Instituto Trata Brasil feitos de 2009 a dezembro de 2014, envolvendo 330  obras de água e esgotos em cidades acima de 500 mil habitantes, mostram que mais de 40% das obras não cumprem o cronograma por estarem atrasadas, paralisadas ou não iniciadas. 

O cenário do saneamento básico mostra que independentemente do país contar com recursos públicos ou parcerias público-privadas, é essencial que exista vontade política e planejamento para resolver o problema. Como as crises geram oportunidades, talvez esse momento de escassez hídrica, que traz sofrimento à sociedade, desperte o desafio de usar melhor a água disponível e resolver definitivamente o problema dos esgotos. O fato da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 tratar do saneamento básico mostra que os esforços da sociedade começam a se congregar em busca de soluções mais realistas; cabe agora às autoridades entrarem na mesma sintonia.


1. Os recursos argumentativos utilizados pelo autor para expor seu ponto de vista são baseados

a) em evidências. 

b) no senso comum. 

c) no raciocínio lógico. 

d) em citação de autoridade. 


2. “A realidade ainda é mais assustadora quando vemos que no Brasil há mais escolas conectadas à internet do que dotadas de sistema de coleta de esgoto.” (4º§) O pressuposto presente nesse excerto é

a) negligenciar o investimento tecnológico faz o país retroceder anos no desenvolvimento.

b) equipar tecnologicamente as escolas é prioritário porque evidencia o avanço e a modernização da educação. 

c) investir na estrutura básica de necessidades da população é prioridade no país e vem sendo feito de forma gradual. 

d) relegar a segundo plano o investimento no saneamento básico em prol do avanço tecnológico é um paradoxo inaceitável. 


3. Acentuar as palavras corretamente é imprescindível para que a norma culta seja mantida na redação de um texto. A alternativa que apresenta um vocábulo que é acentuado por razão DISTINTA das demais é

a) notícia. 

b) sanitário. 

c) construídos. 

d) transferência.


4. “O ‘se’ dos trechos ‘... a falta dessa infraestrutura se tornou...’ (1º§) e ‘Se olharmos a perda de água potável...’ (3º§), indica ______________________________.” 

Assinale a alternativa que completa correta e sequencialmente a afirmativa anterior

a) concessão nos dois empregos.

b) condição na primeira ocorrência. 

c) condição apenas no segundo emprego. 

d) a mesma classificação nos dois empregos. 


5. “O Brasil viveu um ‘apagão’ no setor sanitário de pelo menos duas décadas;...” (1º§) O vocábulo sublinhado, nessa frase, é um exemplo de linguagem: 

a) antitética. 

b) pejorativa. 

c) conotativa. 

d) denotativa. 


6. “Até quando deixaremos milhões de brasileiros sem água e saneamento?” O período anterior

a) introduz vários assuntos que serão tratados no texto. 

b) introduz o tema principal que será abordado no texto. 

c) apresenta informações secundárias contidas no texto. 

d) possui um tom crítico e de objeção ao assunto tratado.


7. O segmento a seguir que apresenta adjetivo sem variação de grau é

a) “Bairros famosos foram construídos sem redes de coleta de esgoto,…” (1º§) 

b) “... nos últimos anos o Brasil viveu um momento mais favorável ao saneamento,...” (5º§)

c) “… portanto, está por toda a parte, dos bairros mais nobres às favelas mais carentes.” (2º§) 

d) “... os esforços da sociedade começam a se congregar em busca de soluções mais realistas,...” (7º§)


8. Apesar do crescimento econômico e da transferência de renda que vivemos nos últimos anos, os dados do Censo 2010 do IBGE mostram que no Brasil ainda temos mais de 11 milhões de pessoas morando somente nestas áreas irregulares, sendo que os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Bahia e Pernambuco concentram as maiores populações nessa situação.” (2º§) Os conectivos são de grande importância na construção textual, mantendo a coerência de ideias. No excerto anterior, o conectivo em destaque possui valor semântico de:

a) causa. 

b) explicação. 

c) concessão. 

d) consequência.

 

9. O “a” sublinhado que deverá levar o acento indicativo de crase está na seguinte alternativa

a) A população da cidade do Rio de Janeiro está acostumada a ver o esgoto ser lançado ao mar. 

b) A falta de serviços regulares de saneamento tem chamado a atenção da população de grandes cidades. 

c) A população brasileira chegou a conclusão de que é necessário usar melhor a água disponível no planeta. 

d) É importante observar que em algumas cidades a infraestrutura ainda é uma das maiores necessidades da população. 


10. “Bairros famosos foram construídos sem redes de coleta de esgoto, consequentemente também sem as estações de tratamento. Regiões muito importantes para o turismo, como o Norte e Nordeste, atualmente são as que possuem os maiores desafios. Menos de 10% da população do Norte têm coleta de esgoto.” (1º§) Nesse segmento do texto, a forma verbal sublinhada que apresenta ERRO em relação à concordância é: 

a) são. 

b) têm. 

c) foram. 

d) possuem.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Português para concurso - Ensino Superior. Banca Idecan

 Paciência de Jó 


Nesses tempos modernos, andamos muito impacientes. 

Durante os anos que passei fora do Brasil, comunicava-me por cartas. Toda noite, sentava na minha escrivaninha e colocava a correspondência em dia. Ia até altas horas respondendo uma a uma, aquelas cartas que chegavam em envelopes verde-amarelos. 

Depois de colocada no correio, uma carta levava de sete a dez dias pra chegar ao Brasil. Se a pessoa respondesse na hora, eram mais sete a dez dias pra chegar até Paris. E eu esperava, pacientemente. 

Todo dia, acordava de madrugada para ir trabalhar. Meu trabalho era preparar o café da manhã para um batalhão de estudantes num restaurante universitário. Quando voltava pra casa, a primeira coisa que fazia era bater os olhos na caixa de cartas que ficava na portaria do meu prédio. Ela tinha quatro furos na parte inferior e, de longe, já dava pra enxergar se haviam chegado envelopes verde-amarelos. 

Era um tempo em que não havia internet, não havia Skype, não havia WhatsApp, e-mail e um telefonema DDD custava os olhos da cara. 

Lembro-me bem que quando o meu primeiro filho nasceu, poucas horas depois dei a primeira clicada no seu rostinho com uma Pentax Trip 33. Levei o filme pra revelar numa loja que ficava na Rue Soufflot e esperei cinco dias úteis para que as fotos ficassem prontas.

 Fotografias na mão, coloquei dentro de um envelope pardo e despachei, pelo correio, pros meus pais, em Belo Horizonte. Quando eles abriram e viram o Julião pela primeira vez, o menino já tinha mais de vinte dias. Eles esperaram pacientemente a hora de ver a carinha do neto francês, uma grande novidade na família. 

O meu pai vivia dizendo que, para levar a vida, era preciso ter uma paciência de Jó. Um dia, fui lá na Bíblia da minha mãe saber quem era o tal Jó. 

Fiquei sabendo que, além de ser o mais paciente da turma, Jó tinha sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de boi e quinhentas jumentas. Imagine que só pra contar essa bicharada, é preciso mesmo ter uma paciência de Jó.

Ninguém tem mais paciência pra nada nesses tempos modernos. Se nos anos 70 eu esperava vinte dias a resposta de uma carta, hoje, se alguém não me responde um e-mail em segundos, já começo a perder a paciência. 

Aqui em casa, a nossa empregada coloca qualquer coisa 30 segundos no micro-ondas, e fica lá com a mão na porta, impaciente, contando nos dedos a hora de apitar. 

No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende mas, mesmo assim, eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes. 

Sem contar o carro de trás que sempre buzina assim que o sinal fica verde, o motorista que começa a acelerar quando percebe que já passaram os minutos e que o sinal já vai sair do vermelho e aquele que passa na sua frente e enfia o carro na vaga do shopping porque não tem paciência de ficar procurando um lugar pra estacionar. 

Isso, sem contar que, no restaurante, quando alguém pede uma coca ao garçom e ele demora mais de um minuto, a gente sempre ouve um... “acho que ele esqueceu!” 

Sinto que muitas pessoas não têm mais paciência pra ler um texto com mais de cinco linhas. Se você chegou até aqui, considero uma vitória! 

Já percebeu que ninguém tem mais paciência de sentar-se na poltrona para ouvir música, pra procurar as três Marias no céu, pra plantar um grão de feijão no algodão e esperar ele crescer. Ninguém tem saco nem mesmo pra jogar paciência. 

Já se foi o tempo em que tínhamos paciência até para decorar latim. Quem não se lembra do famoso Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia mostra? Que, em bom português, quer dizer Até quando abusarás, Catilina, da nossa paciência? 

(Alberto Villas. Carta Capital, 24 de abril de 2016.)


1. Dentre os recursos coesivos utilizados no texto está a retomada de elementos já mencionados, nas alternativas a seguir apresentam-se elementos destacados que são exemplos de tal estratégia, com EXCEÇÃO de

a) “[...] eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.” (11º§) 

b) “Sem contar o carro de trás que sempre buzina assim que o sinal fica verde, [...]” (12º§)

c) “Imagine que só pra contar essa bicharada, é preciso mesmo ter uma paciência de Jó.” (8º§) 

d) “[...] quando percebe que já passaram os minutos e que o sinal já vai sair do vermelho [...]” (12º§)

 

2. De acordo com as ideias e informações trazidas ao texto, pode-se afirmar que o autor, principalmente: 

a) Apresenta fatos do cotidiano a partir de um ponto de vista particular com a intenção de propiciar ao leitor reflexão acerca da questão apresentada. 

b) Define uma posição contrária em relação aos costumes adquiridos pela sociedade no século XXI, especialmente em relação ao uso de novas tecnologias. 

c) Defende que a tecnologia atual é a responsável pela preocupação com questões que envolvem o aceleramento exagerado que vive a sociedade do século XXI e suas consequências. 

d) Descreve o seu trabalho em Paris, demonstrando com particularidades seu posicionamento social e posteriores transformações objetivando demonstrar um processo dinâmico no qual estaria inserido.


3. Considerando o predomínio do uso da norma padrão da língua no texto, considere os comentários referentes ao 1º§ do texto “Durante os anos que passei fora do Brasil, comunicava-me por cartas. Toda noite, sentava na minha escrivaninha e colocava a correspondência em dia. Ia até altas horas respondendo uma a uma, aquelas cartas que chegavam em envelopes verde-amarelos.” e assinale o verdadeiro.

 

a) A forma verbal “chegavam” poderá ser substituída por “chegava” caso a ênfase seja dada à expressão “uma a uma”. 

b) O adjetivo composto “verde-amarelo” faz o plural com a mesma variação vista em “castanho-escuro” e “amarelo-esverdeado”. 

c) A forma verbal “passei” estabelece concordância com o pronome relativo “que”, elemento de coesão textual que retoma o elemento anterior. 

d) Para que não haja prejuízo quanto à coerência textual, a forma verbal “passei” deve ser substituída por “passava”, de acordo com as formas empregadas “comunicava”, “sentava” e “colocava”.


4. O significado atribuído às palavras pode ser diferente tendo em vista o contexto no qual estiverem inseridas. A partir de tal pressuposto, sem que haja prejuízo da coerência e sentido textuais apresentados, assinale a proposta adequada de substituição para a palavra ou expressão destacada a seguir

a) “[...] um telefonema DDD custava os olhos da cara.” (4º§) / um valor peculiar. 

b) “[...] um batalhão de estudantes num restaurante universitário.” (3º§) / aglomeração. 

c) “Fotografias na mão, coloquei dentro de um envelope pardo e despachei,[...]” (6º§) /deliberei. 

d) “[...] eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.” (11º§) / irrepreensíveis.


5. Em “No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende mas, mesmo assim, eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.” (11º§) não haveria prejuízo das informações apresentadas caso fosse feita a seguinte paráfrase: 

a) No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende, enquanto eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes. 

b) Os moradores apertam o botão no elevador do meu prédio, a luzinha acende mesmo eles voltando lá umas três vezes e apertando de novo, impacientes. 

c) Os moradores apertam o botão no elevador do meu prédio, a luzinha acende fazendo com que eles voltem lá umas três vezes e apertem de novo, impacientes. 

d) No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende e mesmo assim, eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes. 


6. Em “Se a pessoa respondesse na hora, eram mais sete a dez dias pra chegar até Paris.” (2º§), caso fosse acrescentado “a” após “até”, não haveria acento indicador de crase. O que, por ser facultativo o seu uso, poderia ser empregado em

a) a obediência às leis é necessária. 

b) disse tudo o que pensava à seu respeito. 

c) comparecer àquela reunião foi de extrema importância. 

d) ele disse que iria até à festa para prestar-lhe homenagem.


7. O vocábulo “que” pode apresentar classificações e funções diversas na construção de frases. Dentre as ocorrências do “que”, assinale aquela cuja função sintática pode ser identificada como sujeito da oração. 

a) “[...] a primeira coisa que fazia era bater os olhos na caixa [...]” (3º§) 

b) “Era um tempo em que não havia internet, não havia Skype [...]” (4º§) 

c) “[...] aquelas cartas que chegavam em envelopes verde-amarelos.” (1º§) 

d) “Durante os anos que passei fora do Brasil, comunicava-me por cartas.” (1º§) 


8. Diante das sequências argumentativas textuais e de acordo com o exposto é possível concluir em relação ao termo “paciência” que

a) suas características foram agregadas de uma nova forma, em um novo modelo, à atual necessidade do sistema social. 

b) algumas consequências de sua ausência total ou parcial podem ser vistas diariamente despertando um sentimento de pesar. 

c) tal capacidade é inibida por tendências modernas desvencilhando-as de algum tipo de processo que envolva algum tipo de norma ou regras determinadas. 

d) não há possibilidade de retroceder ao estado inicial apresentado, em que a sociedade mantinha um ritmo diário de atividades diferente do atual, tornando este melhor que aquele.


9. Em “Até quando abusarás, Catilina, da nossa paciência?” (16º§), a correção gramatical do segmento seria preservada caso

a) apenas a primeira vírgula fosse mantida. 

b) apenas a segunda vírgula fosse mantida. 

c) a última palavra da frase fosse “Catilina”, removendo-se ambas as vírgulas. 

d) a frase fosse iniciada por “Catilina”, mantendo-se apenas a segunda vírgula. 


10. Em geral, textos com a estrutura e finalidade do texto apresentado apresentam uma linguagem em que há

a) certo nível de informalidade através do modo de expressão empregado. 

b) marcas linguísticas que demonstram valorização de determinada fala regionalista. 

c) determinado grau de tecnicidade demonstrado através do domínio do assunto pelo autor.

d) um nível de formalidade elevado demonstrando tratar-se de uma situação formal de comunicação.


 

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