Paciência de Jó
Nesses tempos modernos, andamos muito impacientes.
Durante os anos que passei fora do Brasil, comunicava-me por cartas. Toda noite, sentava na minha escrivaninha e colocava a correspondência em dia. Ia até altas horas respondendo uma a uma, aquelas cartas que chegavam em envelopes verde-amarelos.
Depois de colocada no correio, uma carta levava de sete a dez dias pra chegar ao Brasil. Se a pessoa respondesse na hora, eram mais sete a dez dias pra chegar até Paris. E eu esperava, pacientemente.
Todo dia, acordava de madrugada para ir trabalhar. Meu trabalho era preparar o café da manhã para um batalhão de estudantes num restaurante universitário. Quando voltava pra casa, a primeira coisa que fazia era bater os olhos na caixa de cartas que ficava na portaria do meu prédio. Ela tinha quatro furos na parte inferior e, de longe, já dava pra enxergar se haviam chegado envelopes verde-amarelos.
Era um tempo em que não havia internet, não havia Skype, não havia WhatsApp, e-mail e um telefonema DDD custava os olhos da cara.
Lembro-me bem que quando o meu primeiro filho nasceu, poucas horas depois dei a primeira clicada no seu rostinho com uma Pentax Trip 33. Levei o filme pra revelar numa loja que ficava na Rue Soufflot e esperei cinco dias úteis para que as fotos ficassem prontas.
Fotografias na mão, coloquei dentro de um envelope pardo e despachei, pelo correio, pros meus pais, em Belo Horizonte. Quando eles abriram e viram o Julião pela primeira vez, o menino já tinha mais de vinte dias. Eles esperaram pacientemente a hora de ver a carinha do neto francês, uma grande novidade na família.
O meu pai vivia dizendo que, para levar a vida, era preciso ter uma paciência de Jó. Um dia, fui lá na Bíblia da minha mãe saber quem era o tal Jó.
Fiquei sabendo que, além de ser o mais paciente da turma, Jó tinha sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de boi e quinhentas jumentas. Imagine que só pra contar essa bicharada, é preciso mesmo ter uma paciência de Jó.
Ninguém tem mais paciência pra nada nesses tempos modernos. Se nos anos 70 eu esperava vinte dias a resposta de uma carta, hoje, se alguém não me responde um e-mail em segundos, já começo a perder a paciência.
Aqui em casa, a nossa empregada coloca qualquer coisa 30 segundos no micro-ondas, e fica lá com a mão na porta, impaciente, contando nos dedos a hora de apitar.
No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende mas, mesmo assim, eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.
Sem contar o carro de trás que sempre buzina assim que o sinal fica verde, o motorista que começa a acelerar quando percebe que já passaram os minutos e que o sinal já vai sair do vermelho e aquele que passa na sua frente e enfia o carro na vaga do shopping porque não tem paciência de ficar procurando um lugar pra estacionar.
Isso, sem contar que, no restaurante, quando alguém pede uma coca ao garçom e ele demora mais de um minuto, a gente sempre ouve um... “acho que ele esqueceu!”
Sinto que muitas pessoas não têm mais paciência pra ler um texto com mais de cinco linhas. Se você chegou até aqui, considero uma vitória!
Já percebeu que ninguém tem mais paciência de sentar-se na poltrona para ouvir música, pra procurar as três Marias no céu, pra plantar um grão de feijão no algodão e esperar ele crescer. Ninguém tem saco nem mesmo pra jogar paciência.
Já se foi o tempo em que tínhamos paciência até para decorar latim. Quem não se lembra do famoso Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia mostra? Que, em bom português, quer dizer Até quando abusarás, Catilina, da nossa paciência?
(Alberto Villas. Carta Capital, 24 de abril de 2016.)
1. Dentre os recursos coesivos utilizados no texto está a retomada de elementos já mencionados, nas alternativas a seguir apresentam-se elementos destacados que são exemplos de tal estratégia, com EXCEÇÃO de:
a) “[...] eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.” (11º§)
b) “Sem contar o carro de trás que sempre buzina assim que o sinal fica verde, [...]” (12º§)
c) “Imagine que só pra contar essa bicharada, é preciso mesmo ter uma paciência de Jó.” (8º§)
d) “[...] quando percebe que já passaram os minutos e que o sinal já vai sair do vermelho [...]” (12º§)
2. De acordo com as ideias e informações trazidas ao texto, pode-se afirmar que o autor, principalmente:
a) Apresenta fatos do cotidiano a partir de um ponto de vista particular com a intenção de propiciar ao leitor reflexão acerca da questão apresentada.
b) Define uma posição contrária em relação aos costumes adquiridos pela sociedade no século XXI, especialmente em relação ao uso de novas tecnologias.
c) Defende que a tecnologia atual é a responsável pela preocupação com questões que envolvem o aceleramento exagerado que vive a sociedade do século XXI e suas consequências.
d) Descreve o seu trabalho em Paris, demonstrando com particularidades seu posicionamento social e posteriores transformações objetivando demonstrar um processo dinâmico no qual estaria inserido.
3. Considerando o predomínio do uso da norma padrão da língua no texto, considere os comentários referentes ao 1º§ do texto “Durante os anos que passei fora do Brasil, comunicava-me por cartas. Toda noite, sentava na minha escrivaninha e colocava a correspondência em dia. Ia até altas horas respondendo uma a uma, aquelas cartas que chegavam em envelopes verde-amarelos.” e assinale o verdadeiro.
a) A forma verbal “chegavam” poderá ser substituída por “chegava” caso a ênfase seja dada à expressão “uma a uma”.
b) O adjetivo composto “verde-amarelo” faz o plural com a mesma variação vista em “castanho-escuro” e “amarelo-esverdeado”.
c) A forma verbal “passei” estabelece concordância com o pronome relativo “que”, elemento de coesão textual que retoma o elemento anterior.
d) Para que não haja prejuízo quanto à coerência textual, a forma verbal “passei” deve ser substituída por “passava”, de acordo com as formas empregadas “comunicava”, “sentava” e “colocava”.
4. O significado atribuído às palavras pode ser diferente tendo em vista o contexto no qual estiverem inseridas. A partir de tal pressuposto, sem que haja prejuízo da coerência e sentido textuais apresentados, assinale a proposta adequada de substituição para a palavra ou expressão destacada a seguir.
a) “[...] um telefonema DDD custava os olhos da cara.” (4º§) / um valor peculiar.
b) “[...] um batalhão de estudantes num restaurante universitário.” (3º§) / aglomeração.
c) “Fotografias na mão, coloquei dentro de um envelope pardo e despachei,[...]” (6º§) /deliberei.
d) “[...] eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.” (11º§) / irrepreensíveis.
5. Em “No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende mas, mesmo assim, eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.” (11º§) não haveria prejuízo das informações apresentadas caso fosse feita a seguinte paráfrase:
a) No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende, enquanto eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.
b) Os moradores apertam o botão no elevador do meu prédio, a luzinha acende mesmo eles voltando lá umas três vezes e apertando de novo, impacientes.
c) Os moradores apertam o botão no elevador do meu prédio, a luzinha acende fazendo com que eles voltem lá umas três vezes e apertem de novo, impacientes.
d) No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende e mesmo assim, eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.
6. Em “Se a pessoa respondesse na hora, eram mais sete a dez dias pra chegar até Paris.” (2º§), caso fosse acrescentado “a” após “até”, não haveria acento indicador de crase. O que, por ser facultativo o seu uso, poderia ser empregado em:
a) a obediência às leis é necessária.
b) disse tudo o que pensava à seu respeito.
c) comparecer àquela reunião foi de extrema importância.
d) ele disse que iria até à festa para prestar-lhe homenagem.
7. O vocábulo “que” pode apresentar classificações e funções diversas na construção de frases. Dentre as ocorrências do “que”, assinale aquela cuja função sintática pode ser identificada como sujeito da oração.
a) “[...] a primeira coisa que fazia era bater os olhos na caixa [...]” (3º§)
b) “Era um tempo em que não havia internet, não havia Skype [...]” (4º§)
c) “[...] aquelas cartas que chegavam em envelopes verde-amarelos.” (1º§)
d) “Durante os anos que passei fora do Brasil, comunicava-me por cartas.” (1º§)
8. Diante das sequências argumentativas textuais e de acordo com o exposto é possível concluir em relação ao termo “paciência” que:
a) suas características foram agregadas de uma nova forma, em um novo modelo, à atual necessidade do sistema social.
b) algumas consequências de sua ausência total ou parcial podem ser vistas diariamente despertando um sentimento de pesar.
c) tal capacidade é inibida por tendências modernas desvencilhando-as de algum tipo de processo que envolva algum tipo de norma ou regras determinadas.
d) não há possibilidade de retroceder ao estado inicial apresentado, em que a sociedade mantinha um ritmo diário de atividades diferente do atual, tornando este melhor que aquele.
9. Em “Até quando abusarás, Catilina, da nossa paciência?” (16º§), a correção gramatical do segmento seria preservada caso:
a) apenas a primeira vírgula fosse mantida.
b) apenas a segunda vírgula fosse mantida.
c) a última palavra da frase fosse “Catilina”, removendo-se ambas as vírgulas.
d) a frase fosse iniciada por “Catilina”, mantendo-se apenas a segunda vírgula.
10. Em geral, textos com a estrutura e finalidade do texto apresentado apresentam uma linguagem em que há:
a) certo nível de informalidade através do modo de expressão empregado.
b) marcas linguísticas que demonstram valorização de determinada fala regionalista.
c) determinado grau de tecnicidade demonstrado através do domínio do assunto pelo autor.
d) um nível de formalidade elevado demonstrando tratar-se de uma situação formal de comunicação.
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